É LETRA

(…) Se julga estar a ler uma estopada, uma maçada, sabia que isso, pelo século XVII, era um guisado de ovos com estopa que servia de remédio? Que, por esse tempo, matulão, não era o calmeirão que mora no segundo andar do seu prédio, mas sim a torcida do candeeiro quando crescia e fazia morrão? Nem sequer o guarda-redes do seu clube é uma bisarma, já que isso é um ferro de lança com duas lâminas. Isto são rabiscos? Não, rabiscos são os engaços das uvas que restam da vindima. Tricana, não, não é aquela moçoila do Choupal, dos seus tempos de estudante; é apenas o manto que ela usa. Pivete! Como? Nada disso, bem pelo contrário: até aos finais século XVIII nenhuma mulher dispensava aquela pastilhinha, ou rolo, odoríficos, que queimavam nos contadores. Isso mesmo, os pivetes! E o badameco? Coitado! Nasceu de um trocadilho popular, vade mecum (vem comigo, à letra), nome que se dava a todo o objecto de que se pode precisar em qualquer momento, que se é obrigado a ter à mão (hoje, um guia de turista, p. ex.), para acabar sinónimo de fedelho, janota ou peralvilho (…).
(extracto da contracapa)

NOTA PRÉVIA
Antes de tudo, este livro é o reflexo da gratidão devida a muitas palavras de estímulo. A sua maturação acabou por se tornar a origem de si próprio.

Entendo e é-me grato, devolver o incentivo. Assim, os valores recebidos pelos direitos de autor, serão doados por inteiro a uma instituição, ainda a determinar, de cuidados e apoio a animais desprotegidos.
Aquando a instituição escolhida tomar posse desses direitos, de imediato darei conta nesta página.

as Escrituras, segundo o avô

Hoje acredito que há qualquer coisa de deslumbrante no facto de eu ter nascido no primeiro dia de Abril, em cinquenta e três. É que, acaso maluco, no mesmo dia, cinquenta e oito anos antes, nasceu o meu avô. Talvez fosse essa a razão funda por que éramos tão próximos. Do que dele guardou a minha memória, era um homem bonito, circunspecto, mas de sorriso aberto e franco para tudo que lhe fosse natural, engraçado e, sobretudo, afectivo.

Foi assim que a Laura, um dia, me contou a história mais arrebatadora e simultaneamente mais aluada e patusqueira que ouvi nos últimos anos.

O avô Edmundo era um homem afável, discreto, com um não sei quê de interessante na voz. Mas também era sinceramente devoto. Sobretudo afeiçoado à Bíblia, citava-a imensamente, de tal modo que o pessoal da estação dos caminhos de ferro, em Valença, onde ele trabalhou, com alguma reverência pela sua farta cabeleira branca, chamavam-lhe ‘bispo’ Edmundo. Ele tinha sempre uma citação apropriada para qualquer imprevisto acontecimento. Um dia, eu teria cinco ou seis anos, passeávamos pelo estradão que vai até à margem do rio Minho. Encontramos um agricultor, atormentado, com a carreta empoçada na beira do caminho; o homem vociferava com o infeliz burrico e atiçava-o com um jingoto de medronheiro. O avô aproximou-se do homem, de mãos no ar, abertas, a dizer:
Ó homem! – a voz saía-lhe pausada, mas tonitruante – você nunca leu a Sagrada Escritura? Devia ter lido! ‘Todo aquele que fere uma besta do campo, fere o amor de Deus. Até mesmo o humilde jumento, porque se afadiga sob o seu fado’. Pode ler isso, nas Crónicas, 8:3.
O homem, confuso e embasbacado, tirou o chapéu e encolheu-se, um pouco, envergonhado. Foi buscar água para o animal, o avô encostou o ombro à carroça, o camponês empurrou de lado, o orelhudo solevou as orelhas e a carreta lá voltou ao caminho.
Durante muito tempo, eu costumava ir até à estação. Ao fim do dia, quando já não circulavam mais comboios, por vezes tinha a sorte do avô me levar numa locomotiva, nas manobras para arrumar alguns vagões. Decorrido largo tempo, no remate de uma dessas tardes, dentro do armazém, houve mosquitos por cordas entre dois serventes. O avô, chegou, separou-os e atirou:
– Idiotas! Vocês querem os miolos para quê?!… Têm de se lembrar que ‘aqueles que vivem em amizade serão prósperos e felizes; aqueles que se ferem uns aos outros com golpes só colherão feridas e ressentimentos como recompensa. Jeremias 46:24’.
Embora soubesse de outras muitas interpelações semelhantes do avô, aquela foi a segunda vez a que assisti. E, confesso, fiquei impressionada, não só com a sabedoria da citação, como com a prodigiosa memória do avô. Quando voltei a casa procurei a Bíblia para ler o trecho a que o avô aludia. Mas, quando encontrei Jeremias, e 46, fiquei surpreendida porque a profecia era sobre a Babilónia e o Egipto; não havia a mais pequena referência a amizade, feridas ou ressentimentos. Aí, lembrei-me, procurei o Livro das Crónicas, 8, mas do inditoso jerico, nicles, apenas umas abstrusas referências sobre como Benjamim gerou Belá e Ner gerou Quis.
Nessa ocasião o avô entrou na sala e viu-me sentada à mesa de jantar, com a Bíblia aberta. Pela minha cara de perplexidade, ele percebeu alguma coisa. Séria, porque hesitou, uma, duas vezes. Abeirou-se de mim, colocou a mão no meu ombro e cochichou:
– Podemos guardar um segredo? Só nosso?
Concordei, num sussurro, para precatar o sigilo. Pensei, sabia, que o avô só fazia aquelas citações sempre para bem dos outros, e se o Senhor houvera esquecido algum problema, desses mais comezinhos decorrentes de certas situações modernas, é claro que o avô tinha de lhe dar uma mãozinha…
Anos depois, quando terminei o liceu, disse aos meus pais que queria ir para a escola de teatro, em Lisboa. Os pais, a tia Leonor, até os meus amigos e a senhora Ana, que era a nossa cozinheira, ficaram muito preocupados, pesarosos e angustiados. O teatro era um trilho sem sentido, frívolo, desconchavado, impudico e pecaminoso.
Pensaram assim, mas disseram que a distância me iria deixar em compridos e intermináveis desamparos, riscos e precipícios. Eu queria muito ir e, se o avô nunca interferia com meus pais nos altos ditames da minha educação, daquela vez levantou a mão:
‘Aquele que viaja com a graça de Deus pode aventurar-se mesmo até Sodoma ou Gomorra, porque tem a luz do Senhor. Ezequiel, 12:14’.
Tive a impressão de ver nos seus olhos uma embiocada piscadela. Todos chegaram à conclusão de que, se a Bíblia e o avô achavam que estava bem, então era porque estava. Eu podia ir. E fui.
Dois anos depois chegou o dia de  telefonar aos meus pais, feliz, para lhes dizer que, finalmente, iria pisar o palco do Teatro D. Maria. Passaram o telefone ao avô, que deu um grito estrondoso. Contaram-me depois que foi para a sala, junto à janela para o jardim, sentou-se na sua cadeira grande e lá ficou, rindo, dando palmadinhas nas pernas. Não chegou a levantar-se da cadeira. Morreu a rir baixinho. Acho que devia ter chegado ao céu a rir. A minha mãe, um pouco antes do fim, tentou aquietá-lo; ele levantou a mão e disse-lhe:
‘Bendito o homem que encontra regozijo na sua prole dilecta, pois vive a sua vida dobradamente. Deuteronómio, 7:13’.

Conforme ia debulhando a narrativa, Laura ia perdendo a capacidade de suster o caudal de emoções que lhe transbordavam das palavras. Deixou cair um silêncio denso e perturbado. Sem saber bem o que dizer, atirei:
As canções e as histórias mais doridas são, muitas vezes, as mais belas.
Mais repousada, deu uma risada branda e aprazível, antes de dizer:
– Coríntios, Segunda Epístola, 8:14, não é, Jorge?…