come-se?…


Havia um tempo antigo (cada vez mais…) no qual a alimentação era gerida por um braçado de conceitos descomplicados e de fácil alcance: comia-se o que houvesse, o que apetecia e sempre se sabia que se o codear está no começar, não era menos verdade que ao que de mais comer, abre-lhe o garfo a cova. Além disso… haja boa vida, que rugas tira.
Isto até certo dia. Pelo menos, para mim, que comecei a ver prazos de validade nisto e naquilo que ia encontrando no supermercado. Parecia um campo minado. Válido até, é bom de ver, muito simplesmente queria dizer morte após…
E dei comigo a, automaticamente, verificar os prazos de validade de tudo e mais alguma coisa, mesmo das garrafinhas de água mineral. Reparei que nas lojas, pequenas ou tipo pavilhão industrial, colocavam os iogurtes com prazo de validade até mais tarde, na parte de trás da prateleira, à frente daqueles que já com ar de monos, era preciso despachar depressinha. Por isso, tiro sempre os iogurtes lá dos fundos. Isto não é birra nem cisma de qualquer seita religiosa ou alimentícia. O facto é que deixei de comer frango, que agora é alimentado a hormonas e o resto, troquei umas coisas por outras, mas mesmo assim não estou, nem perto, daquele magote de praticantes da correcção alimentar. O meu credo é comida saudável, mas é preciso que saiba bem. Para muita gente, comer já não é um prazer; é uma complicadíssima mistela química. Já ouviram dizer que a batata-doce activa o hipocampo, aquele sítio do cérebro, que é assim tipo o avalista da nossa memória, ou que a casca da laranja pode impedir o crescimento das células cancerígenas? O estorvo é que essa coisa das verdades sobre alimentos são mais escorregadias do que areia pelos dedos. Há uns dias, um nutricionista de uma universidade já não sei de onde, demonstrava a importância da carne bovina como fonte de ferro. Então já não preciso de comer espinafres? E as cenouras? Entre o mais, que evita doenças degenerativas na visão mas, segundo sei, fazem mal ao pâncreas? Essa é que essa: os prosélitos ou futuros aderentes da alimentação esmerada e saudável, nunca têm a certeza de estar a adorar o santo certo. Nesta religião, os deuses mudam como o tempo e a teologia varia como o catavento. Vejam lá o exemplo da maçã: existe coisa mais saudável? Bom… a verdade é que por baixo daquela lindeza, polida, colorida e igualzinha uma a outra, é um produto altamente suspeito, cheio de pesticidas mais o resto. Além disso, diz-se agora, que as maçãs não orgânicas (?!…) são potencialmente fatais. Ao mesmo tempo, o especialista da universidade ali em frente, diz que seria preciso comer 150 maçãs por dia durante 100 anos para começar a sentir os primeiros sintomas de envenenamento. Dou por mim a pensar que esta generalizada e constante incerteza faz com que os paladinos do comer saudável fiquem com um ar um tanto coado e desengraçado. E não é de espantar: nunca se sabe se, por exemplo, as fibras, que é uma coiseca sine qua non na alimentação de vanguarda, não passarão, de hoje para amanhã, para a lista do não comer ou até vir a descobrir-se a careca daquelas biológicas verduras terem sido geneticamente manipuladas.
Entremear aqui a gracinha do Senhor Xavier, bonacheirão sexagenário que conheci há uns meses, ufano na sua popularidade de produzir o melhor bagaço de Melgaço. Ria com gosto ao propalar que o feito era do segredo, herança do seu avô. Um dia, defronte de uma cabidela, contou-me a pilhéria do seu segredo, que ao cabo é bem conhecido de familiares e amigos: A água que se usa na serpentina é dali, do cacho do gato, na nascente (uns poucos metros abaixo da nascente de um rio minhoto). Da torneira, dizia ele, nunca!
Mas voltando às verduras sadias: será que o nosso futuro serão aqueles tomates, encarnadinhos, luzidios e redondos, mas na verdade completamente sensaborões?
Lembrei-me deles a propósito dos que o Mário da Gieira ou a senhora Esmeralda Mendes me habituaram a recolhe-los da saquita que, de vez em quando, me penduram no portão. Amadurecidos pelo arejo fresco do monte e aconchegados por este sol lavado e sorridente, lá estão eles, variados na forma e na cor, mas todos sumarentos. Um regado!
E confesso, é verdade, nunca perguntei aos meus simpáticos vizinhos se usavam pesticidas ou não.


não é grave, mas…


Entrei naquela fase crítica da vida em que as pessoas se recusam a admitir que estão a ficar velhas, mais ou menos na mesma altura em que a família e os amigos mostram alguma relutância em falar nisso… pelos menos à nossa frente.

Quando acabei por aceitar a realidade de ter dificuldades com a vista, fui consultar o médico. Ele também evitou mencionar que a idade era a causa do problema.
Não é nada de grave, trata-se de um pouco de presbiopia.
Não entendi. Presbiopia? Não sei o que é. Mas calei-me.
Quando cheguei a casa peguei no dicionário e… encontrei:
Presbiopia, presbitia ou presbitismo é a diminuição progressiva da capacidade de ver com nitidez, provocada pela perda de elasticidade do cristalino’.
Depois, como o meu dicionário é enciclopédico e, por isso, inclui a etimologia de quase todas as palavras, tem a mania de dizer mais do que se lhe pede.
Vai daí, em acrescento e entre outras palermices, lá estava chimpado o sabor amargo da verdade:
‘do grego presbus, velho’.